Imagine-se um país solarengo à beira-mar plantado. Praças, praias, miradouros, pelourinhos. Cenários exteriores e interiores. Paisagens de fazer crescer água na boca. Um lugar alegre construído apenas por poetas tristes.
Um país aboletado no mais recôndito e velho continente do universo. Um país que diziam sofrer de mal congénito. Maleita que lhe vinha da crença primitiva de que era magnífico ter por canção nacional “o destino”.
João Eduardo Ferreira Cópia Falsa Paulo Romão Brás (Fotografia) 2026 200 páginas Capa dura 145x210mm ISBN: 978-989-53366-5-4 Coleção: LXYZ, 3
Escrever um texto a oito mãos seria tarefa fácil para um polvo, caso os polvos dominassem a arte da escrita. Tratando-se de bichos homens, em oito mãos contam-se 40 dedos, mais do que as letras do alfabeto, cada um deles com disponibilidade para pressionar o teclado (uns com mais destreza do que outros, pois está claro). Além disso, é preciso acrescentar um mínimo de quatro cérebros, cada um mais teimoso do que o outro, pois sabe-se que, sem estes, as mãos ficam penduradas, sem saber onde se meter.
De início metemos os pés pelas mãos (e diga-se que os dedos dos pés são extremamente incompetentes em matéria de escrita), mas depois lá encontrámos uma forma hábil de dividir tarefas: uma mão para pôr vírgulas, outra para carregar no caps-lock em caso de maiúscula; uma para as palavras difíceis, outra para as mais correntes; uma dada a metáforas, outra sempre pronta a apagar o que todas as outras escreveram; uma para dar um murro na mesa, outra para coçar a cabeça em busca de ideias… que isto de escrever, como se sabe, faz uma comichão dos diabos.
A Morte do Artista chega ao #8. Marca que os jornais diários alcançam à entrada da segunda semana de publicação. Mas como nós escrevemos a oito mãos, demorámos um bocadinho mais tempo. Oito anos irresponsavelmente dedicados ao trabalho de cuidar (ou descuidar) de algo tão sagrado como a literatura, arte sem a qual não saberíamos viver. Isto é um exagero, claro, coisas que se dizem da boca para fora… Se os livros fossem comestíveis há muito que os teríamos devorado. Quem resistiria a um bom Saramago com molho à chefe? Ou a um Camilo com ovo a cavalo? Razão tinha o Bolhão Pato, de quem não conhecemos os livros, mas veneramos as amêijoas (a sétima mão não concordou com o que a terceira escreveu, talvez por não gostar de amêijoas, mas a quarta, in extremis, impediu que a frase fosse apagada).
Da boca para fora, desafiámos a nossa querida Hélia Correia a escrever um texto para a revista. E do coração para dentro ela ofereceu-nos este “Estar a Mais”. Esfregámos as mãos de contentes. Às nossas mãos, que então já eram 12, juntámos outras 22. Feitas as contas, só não são 340 dedos porque vários autores juraram a pés juntos que jamais, em circunstância alguma, usaram os mindinhos, e há outros que abdicaram do polegar e do anelar. Obviamente, é algo que respeitamos: cada um coça a cabeça com os dedos que estiverem mais à mão.
E… mãos à obra. Ficámos feitos num oito, para criar este objeto tentacular, que vai dos fiordes da Noruega à praia da Adraga, num dedilhar de caminhos, entre prosa, poesia, ilustração. Como sempre, como dantes… Enfim, da boca para fora, haveria muito mais a dizer sobre a revista, mas a mão que põe os pontos finais acha que devemos ficar por aqui. E quem somos nós para a contrariar?
Uma viagem poética em torno de Sebastião Alba, que tem como fundo uma Lisboa interior. Arder no Gelo é a mais recente novela do jovem multipremiado escritor moçambicano Mélio Tinga, fruto de uma residência literária em Portugal. A prosa de Mélio tenta chegar aos confins da alma para descrever o indiscritível. Um livro feito de sensações que pode definir-se numa da suas diatribes: “És como o pássaro que levaste na gaiola, com a decidida intenção de deixá-lo voar (mas está ainda ali, pendurado). Atiraste-te à rua, infestada de tudo que te foi diluindo. Viver a fugir do vento e do sol. Esbofetear o mundo e entrar para esse teu planeta geométrico, poligonal, imóvel.” Arder no Gelo inaugura, juntamente com Ascendentes, de João Paulo esteve da Silva, a coleção LXYZ, d’A Morte do Artista.
Ascendentes reúne, em série temporal, poemas escritos entre junho de 2019 e dezembro de 2021. A sequência não é rigorosamente cronológica, pois dão-se, aqui ali, uns passos atrás, mas nunca para muito longe. Os textos precedem (alguns quase preveem) os confinamentos, vivem-nos e, depois, ultrapassam-nos. Uma boa parte dos poemas poderia entrar na categoria de “poemas de passeio”, tendo surgido a meio de deambulações por uma Lisboa quase deserta, em que a natureza nos seus três reinos como que recomeçava a reclamar os seus direitos — o ar e a água purificadas, o vegetal e o animal regressando em força, tanto na realidade como, e sobretudo, na imaginação. Ascendentes inaugura, juntamente com Arder no Gelo, de Mélio Tinga, a coleção LXYZ, d’A Morte do Artista.
João Paulo Esteves da Silva Ascendentes 2025 60 páginas capa mole 145x210mm ISBN: 978-989-53366-3-0 Coleção: LXYZ, 1
Senhoras e senhores, meninas e meninos, amantes e amados, e todas as variantes, prenomes, sufixos, prefixos, bem-vindos a A Morte do Artista! A inexcedível, incontornável, inabalável, inalcançável, insuperável, inabatível, entre outros íveis e áveis, revista de periodicidade eventual, que eventualmente tem sido lançada à razão de uma edição por ano.
Preparem-se porque aquilo que estão prestes a experenciar está apenas ao alcance de um pequeno grupo de privilegiados, que até pode não reunir as condições económicas das elites, mas graças à sua sorte, ousadia e bom-gosto, acaba de ganhar o Euromilhões dos consolos da alma.
Se tem este exemplar nas mãos, e por isso lê estas palavras, pode, desde já, considerar-se um felizardo. Não está perante um objeto qualquer. Logo à partida, já deve ter reparado na textura. A nossa revista não é impressa num papel vulgar, mas noutro de uma suavidade tão agradável ao tato, que noutros tempos serviria para cobrir o leito de princesas no oriente médio. A revista é concebida com a ergonomia perfeita para evitar danos nas articulações e serve mesmo sarar dores de costas, de cabeça e outras maleitas, além de ser antialérgica, sem resquícios de lactose nem glúten. Sendo a sua especialidade, como já se disse, a cura das maleitas da alma.
Entre os textos e ilustrações publicadas só encontrará a vulgaridade quem muito a procura. Os textos e publicações são breve obras maiores, tesouros com entrada direta para a posteridade. Desde os tempos do Orpheu que não se assistia a tanta genialidade por centímetro quadrado. Está é a revista que pode mudar a sua vida. Porque é a única revista no mercado que se propõe a explicar o seu sentido. E explica-o.
Todos os autores se excederam, em obras em que se ultrapassam a si próprios rumo à transcendência. Através da leitura destas páginas, desvendam-se os grandes mistérios da humanidade. Se Deus tivesse lido este número antes da criação, o mundo seria diferente, pois estas páginas foram perfumadas com o elixir da eterna juventude. E nem a banha de mil cobras balofas poderá retirar-lhe o perfume.
Depois da leitura atenta deste número, nada será como dantes. É uma nova vida que se abre e se regenera. O mundo voltará a desenhar-se em esquissos harmoniosos. As adversidades da vida ganharão um sentido poético. A Morte do Artista é o atalho mais curto para a felicidade plena e o cumprimento de todas as utopias.
Não percam, pois, esta oportunidade. A felicidade é de quem a procura. E A Morte do Artista oferece-lhe todos estes consolos da alma e do corpo em troca apenas e tão somente da mais pequena das notas em circulação no mercado, com a certeza da sua valorização a curto e médio prazo é bem superior à de qualquer obrigação bancária ou certificado de aforro. Leiam A Morte do Artista e a vida voltará a sorrir.
Há cafés sem princípio e princípios sem fim. Para complicar ainda o léxico quotidiano do empregado de balcão, passámos a pedir um café com o fim da bica anterior. Com ar de quem diz “inventam-cada-coisa”, “só-me-faltava-mais-esta”, o homem, com uma rudeza que não lhe é típica, respondeu: “Mas isso é fácil, basta usar uma chávena por lavar”.
Para nascer de novo – dizem os antigos e Salmon Rushdie que é dos homens que mais vezes renasceu – é preciso morrer primeiro. Todos somos um pouco gatos de sete vidas mal contadas. Ver nos finais novos princípios é o mais básico instinto de sobrevivência, basta olhar para as camadas do subsolo das escavações arqueológicas.
O fim é um princípio que muitas vezes ignoramos, mas sem o qual não conseguimos viver. Claro que há outros princípios: a Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação. Nesta revista a morte é o nosso princípio, acabamos cada número sem a certeza de que vamos fazer o seguinte. Mas é através dos restos, da comida que sobra no tacho, dos pedaços de fim, que criamos a base para o novo refogado. Como nascemos, enquanto revista, a um 13 de maio (valha-nos nossa senhora), até lhe chamámos um milagre, apesar dos milagres não fazerem parte dos nossos princípios.
E, em principio, não será ainda o fim. Ou, como diz Manuel António Pina, “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma é apenas um pouco tarde”. Parece ser sempre tarde para tudo o que queremos fazer.
Para já celebramos. Temos uma revista nova cheia de poemas e prosas inéditos, de autores de que muito gostamos. E, à sexta reencarnação, homenageamos Regina Guimarães, uma poetiza que nos habituámos a cantar e que adoramos ler em voz alta. É Regina Guimarães que pergunta no poema que nos oferece: “Como tens passado? Como tens futuro?” Temos passado bem obrigado. Quanto ao futuro… está mesmo aí ao virar da página.
«Errar… Lisboa», uma impressão breve da realidade.
Reter, ou melhor, deter a breve impressão da realidade não terá sido o propósito inicial da dezena e meia de caminhadas que os dois fotógrafos errantes, Paulo Romão Brás e Bruno Pereira, realizaram por Lisboa. Acompanharam-se no olhar translúcido de uma cidade que há muito deixou de ser somente o espaço onde se habita, se trabalha, se desloca e se distrai. A cidade é um lugar onde, acima de tudo, se reconstrói e, por ela, se vai errando.
Longe vai o tempo da câmara escura e da projecção luminosa que, lentamente, ia impressionando a superfície metálica onde a prata cintilava. Na sua frente perfilavam-se circunspectas personagens, grande bigodaças ou saias compridas, farfalhosas. Apesar de tudo, esta rápida tecnologia em clara competição contra a demorada pintura dos retratos. As ruas das cidades, essas, deixavam-se menos fotografar, pois eram mais coisas do povo que da arte.
Contudo, a tecnologia lá foi digerindo séculos de rapidez e de custos, tornando-se cada vez mais popular. O nitrato de prata e as 36 fotografias dentro de um rolo deram lugar ao imediato e infinito mundo digital. O acesso livre à arte instantânea tornou-se democraticamente universal, armazenada em contentores colossais, guardada em satélites que, divinos, nos espreitam permanentemente a partir do grande espaço. Perdeu-se a conta às imagens repentinas de flores, gatinhos e pores-do-sol e a arte foi progressivamente abandonando a crítica, assumindo o falso compromisso estético de que o artista somos nós todos.
Porém, tal como os dois artistas o fizeram, também Lisboa, por ela própria, permaneceu a errar, sistematicamente, e a reconstruir as suas ruas sobre essa suposta falha contínua, sobre uma mole infinda de falsas belas fotografias partilhadas nas redes sociais onde, apesar de tudo, se esconde a centelha urbana de «a Utopia ou o Caos».
É nesse instante claro que as imagens de Bruno Pereira e Paulo Romão Brás vêm exigir ao espectador um tempo, solicitando a quem as olhe o modo necessário para deter, ou melhor dizendo, reter não a citada realidade mas a sua impressão, o seu código, a sua interpretação. Estas fotografias, nem landscape nem portrait, aproximam-se muito mais do velho ciclo das naturezas-mortas. Still Life. Se surgem transeuntes, aliás muito poucos, eles não são retratados, apenas conferem um elemento em ponto-morto para que o cenário, aos nossos olhos, se desloque ostensivamente do centro e nos mostre a periferia. Tal como a cidade que, dia a dia, é cada vez mais edificada a partir da periferia. Aí, no lado lateral, é que se encontra o respectivo cerne. “I Can´t Breathe” implora o unicórnio-balão esvaziado de hélio ou de atmosfera, esgaravata o cão no vidro que o impede de respirar. As montras grafitadas, os papéis rasgados, os cabeleireiros abandonados. O chão há muito repisado. Não estão devolutos, antes solicitam o exigível resgate. A sua figuração sugere uma espécie de fade out perante a realidade anterior que, afinal, já não representa; um facto tão parecido com os velhos daguerreótipos que, séculos depois, vão perdendo a luz que os impressionou, esquecidos de que as modernas fototecas já lhes interromperam o desvanecimento, restaurando-os, digitalizando-os, amputando-os do natural caminho para a total, final abstracção luminosa.
Mas os errantes Bruno Pereira e Paulo Romão Brás não se apresentam como taxidermistas das imagens. Eles apreciam, sobremaneira, a sua evolução, o seu princípio vital. A cidade de Lisboa que nos mostram talvez não tenha falhado assim tão redondamente. Talvez ela esteja simplesmente a emendar a mão e a seduzir-nos tentando contar a história da sua utopia ou do seu caos. Melhor, pelas fotografias de Paulo Romão Brás e Bruno Pereira, Lisboa tenta antes dissimular a encenação da sua utopia e a ética do seu caos.
Nada acontece num abrir e fechar de olhos. Tudo leva o seu tempo. O tempo que se apodera das emoções, das vontades, das necessidades de estarmos uns com os outros. Circulamos por enfadonhos dias, deslizamos nas noites de sono. Abrimos os olhos para outro dia que se apodera de novo das emoções e do resto. Os dias que passam são o tempo a correr. A medida do tempo existe para nos alinharmos civilizadamente nos enfadonhos dias. E nos outros também. Andamos controlados por nós próprios. Insistimos em ser educados e solícitos. Solidários, dizem alguns. Quando a felicidade nos surpreende tentamos catalogar o feito. Chamamos a esse encontro o que nos dá mais jeito: somos putos a desenhar destinos. Há encontros que são para a vida. Outros que não. Mandamos às urtigas a medida do tempo e apaixonamo-nos. Queremos é estar uns com os outros. Mais nada.
O André Ruivo está sempre com os olhos abertos. Atento a tudo. E percebe tudo tão bem. Uma vez mostrou ao João Eduardo Ferreira umas ideias que tinha passado para traços e cores e manchas. O João Eduardo também percebeu tudo e escreveu de carreirinha as linhas que casam com os desenhos. Às vezes não se percebe bem se não estiveram os dois a olhar para as coisas ao mesmo tempo. É que agora para ali andam às voltas. Num reboliço de intrigas, contando vidas, em relações banais, ora amargas, ora doces, mas sem análise de sociólogo. Há atracções fatais que dão em banais. E o contrário também acontece. Tudo pode acontecer por estas bandas. Estas linhas deslizam pelos veios do suporte sem direito a bocas foleiras. As bocas destes bonecos dizem o que lhes apetece com a compostura das suas origens, que são diversas. Os bonecos estão atentos porque o André é que dita as regras: linhas bem definidas. Manchas de cor visivelmente registadas como seda pura das melhores origens. E há mesmo aqui uma doçura que comove. A mim comove-me.
Eu gostava de saber desenhar tão bem como o André e de escrever tão bem como o João Eduardo. Então é que eles iam ver o que é doce.
Se formos muitos a acelerar em contramão, acabaremos por mudar o sentido do mundo. E, a partir de então, os verdadeiros e inconformados contestatários serão aqueles que, por teimosia ou hábito, insistem em circular sempre na mesma direção. Todo este processo, claro, provoca acidentes e vítimas morais. Se a regra é subverter as regras, todos têm eventualmente razão. Resta-nos escrever uma declaração amigável em versos alexandrinos (também pode ser uma declaração de amor!) e depois queimá-la como faziam os profetas da arte efémera.
Nós, que somos politicamente concretos, na época do degelo, calçámos os pneus de chuva, tirámos a licença de condução para veículos anfíbios, vendámos os olhos para ver melhor o lado de dentro, e zarpámos por aí a fora, numa caravana dismórfica, feita de quem se quer juntar. Se empurramos com força talvez a Terra passe a rodar para o outro lado – não dá para recuar no tempo, mas pelo menos desenjoamos… que isto de passar a vida acopla- do à mesma direção não é destino que se apresente.
Neste V volume, pós-pandémico e pré-outra-coisa-qualquer aceleramos sem conta nem medida. É a edição mais longa, mais cheia e mais diversa. Só não é a melhor, porque, como se sabe, a melhor é sempre a que vem a seguir. Inventámos novas latitudes, descobrimos formas, derrubámos semáforos e sinais de sentido único. Sem grandes itinerários, se calhar sem sequer saberemos a quantas andamos, fazemos uma vénia a José Eduardo Agualusa, e continuamos a descobrir mundos, sobretudo os nossos, do Areeiro a Moçambique, de Israel a Angra do Heroísmo, de Queluz à Cruz Quebrada, entre outras estações de serviço.
Ah, e agora A Morte do Artista tornou-se uma Associação Cultural sem fins lucrativos. Este último predicado impede-nos de nos indexarmos à bolsa, mas tiraremos outras vantagens. Orgulhosamente eventuais mas não sós, muito bem acompanhados, já publicámos dois livros e cinco revistas. Sempre sem fundos nem meios, sem métodos nem maneios, prego a fundo, via rápida, galgamos uma estrada imaginária confiando na qualidade do despiste. Se é para cair, que seja com estilo. Agora e sempre, o único e verdadeiro desastre é ficar parado.
Desenhos de Alexandra Ramires, Poemas de Manuel Halpern. Uma história para contar. O amor líquido entre um homem peixe e uma mulher maquilhada. Ou o que fazer quando aqueles que nos vêm salvar são os mesmos que nos atiraram ao mar.