Editorial vol. 2

Afinal havia outro. Quando, no ano passado, saiu o primeiro número – dedicado ao escritor Mário de Carvalho – ainda não o sabíamos. A ‘periodicidade eventual’ deixava-nos à vontade para não insistir. Mas eis quando senão, em Maio, surge novo milagre. Os milagres também são assim: uma pessoa habitua-se e depois não quer outra coisa. E tudo isto é milagroso porque as páginas que se seguem são bordadas à mão, sem apoios nem logística, inventando a cada passo o seu próprio processo de construção, numa aventura coletiva, alucinada, fruto da indómita vontade de chegar ao outro.

O Outro é precisamente o tema do segundo volume de A Morte do Artista. E este outro podem ser tantos quantos todos aqueles que povoam o universo de Gonçalo M. Tavares, os seus senhores e mundos – temos dele um texto inédito. O outro é aquele que vem de fora, o que fala outras línguas, como os nossos ‘artistas convidados’ que escrevem em mirandês, galego e catalão. O outro é também uma das mais eruditas das nossas fadistas que arrisca aqui pela primeira vez a ficção. O outro é esta imponderada amálgama de géneros, que passa por ensaio, conto, poesia e teatro. O outro são os autores que fogem aos seus próprios estilos e aqui se expõem de forma surpreendente. O outro é aquele que nos procura. O outro é aquele que nos observa. O outro, na verdade, somos nós. Somos tantos outros quantas as diferenças na escrita, acordos ortográficos incluídos.

Em 2015 um grupo de escritores com vontade de divulgar os próprios textos e uma editora que procurava novos desafios juntaram-se para encenar leituras. Assim nasceu a Morte do Artista, na 1ª edição do Reverso, na S. I. Guilherme Cossoul. Em 2017 convidámos um artista plástico para se juntar a nós e criámos uma revista. Nascemos com os pés para a cova e ainda não nos sentimos muito bem. Se não estivéssemos à beira do precipício, não saberíamos para onde caminhar. Assim, moribundos de batismo, natureza e condição, vamos dando pequenos passos em frente, para espreitar o que se passa lá em baixo. E dizemos…

Viva! Viva a Morte do Artista!