Fôssemos nós Pinóquio e os nossos narizes já se haviam encurvado como as unhas de quem nunca as corta. Nada do que aqui está escrito se pode ler à confiança. Nem sequer este texto. A verdade é uma mentira bem contada. E tudo o resto é trabalho de amadores. Como nós. Que mentimos com todos os dentes.
A mentira, já se sabe, é o instrumento basilar da ficção. A poesia é tida como mais sincera. Mas apenas porque mente com mais convicção. E o ensaio, assim como a ficção e a poesia, tenta apenas adivinhar a verdade. Então, pois, a literatura é mentirosa. Ou então, talvez a verdade que tanto se procura esteja lá no fundo escondida por baixo de uma camada de falsidade feita de palavras. É preciso bem mentir para chegar lá.
Em verdade vos dizemos que este é o terceiro volume de «A Morte do Artista». Uma revista fundada em 2017, que tem mantido o alucinante ritmo de um número por ano. Editamos a nossa própria escrita, a nossa arte visual e também as nossas ideias, sem patronos nem patrícios. E convidamos outros que tais, admiráveis pela sua capacidade de mentir, a juntarem-se às nossas desventuras. Arriscamos, caímos e levantamo-nos. Assim aconteceu no primeiro volume, dedicado à Queda, em que oferecemos um prémio a Mário de Carvalho. E no volume dois, consagrado ao Outro, em que revelámos o M de Gonçalo M. Tavares.
Agora, mentimos com Lídia Jorge, escritora que com a verdade nos engana e nos oferece um magnífico conto inédito. Dela será o prémio «A Morte do Artista». E mentimos com todos os outros. Incluindo insuspeitos cúmplices do Brasil e de Cabo Verde, o mais literato dos músicos de Rock ou um artista plástico que nos mente por desenhos. Feitas as contas, o volume três da nossa revista é feito por 16 autores. Todos valem a pena. Deixem-se, pois, enganar nas páginas que se seguem. Se encontrarem revista melhor num outro estabelecimento, devolvemo-vos a diferença de preço.
