Se formos muitos a acelerar em contramão, acabaremos por mudar o sentido do mundo. E, a partir de então, os verdadeiros e inconformados contestatários serão aqueles que, por teimosia ou hábito, insistem em circular sempre na mesma direção. Todo este processo, claro, provoca acidentes e vítimas morais. Se a regra é subverter as regras, todos têm eventualmente razão. Resta-nos escrever uma declaração amigável em versos alexandrinos (também pode ser uma declaração de amor!) e depois queimá-la como faziam os profetas da arte efémera.
Nós, que somos politicamente concretos, na época do degelo, calçámos os pneus de chuva, tirámos a licença de condução para veículos anfíbios, vendámos os olhos para ver melhor o lado de dentro, e zarpámos por aí a fora, numa caravana dismórfica, feita de quem se quer juntar. Se empurramos com força talvez a Terra passe a rodar para o outro lado – não dá para recuar no tempo, mas pelo menos desenjoamos… que isto de passar a vida acopla- do à mesma direção não é destino que se apresente.
Neste V volume, pós-pandémico e pré-outra-coisa-qualquer aceleramos sem conta nem medida. É a edição mais longa, mais cheia e mais diversa. Só não é a melhor, porque, como se sabe, a melhor é sempre a que vem a seguir. Inventámos novas latitudes, descobrimos formas, derrubámos semáforos e sinais de sentido único. Sem grandes itinerários, se calhar sem sequer saberemos a quantas andamos, fazemos uma vénia a José Eduardo Agualusa, e continuamos a descobrir mundos, sobretudo os nossos, do Areeiro a Moçambique, de Israel a Angra do Heroísmo, de Queluz à Cruz Quebrada, entre outras estações de serviço.
Ah, e agora A Morte do Artista tornou-se uma Associação Cultural sem fins lucrativos. Este último predicado impede-nos de nos indexarmos à bolsa, mas tiraremos outras vantagens. Orgulhosamente eventuais mas não sós, muito bem acompanhados, já publicámos dois livros e cinco revistas. Sempre sem fundos nem meios, sem métodos nem maneios, prego a fundo, via rápida, galgamos uma estrada imaginária confiando na qualidade do despiste. Se é para cair, que seja com estilo. Agora e sempre, o único e verdadeiro desastre é ficar parado.

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