«Errar… Lisboa», uma impressão breve da realidade.

Reter, ou melhor, deter a breve impressão da realidade não terá sido o propósito inicial da dezena e meia de caminhadas que os dois fotógrafos errantes, Paulo Romão Brás e Bruno Pereira, realizaram por Lisboa. Acompanharam-se no olhar translúcido de uma cidade que há muito deixou de ser somente o espaço onde se habita, se trabalha, se desloca e se distrai. A cidade é um lugar onde, acima de tudo, se reconstrói e, por ela, se vai errando.

Longe vai o tempo da câmara escura e da projecção luminosa que, lentamente, ia impressionando a superfície metálica onde a prata cintilava. Na sua frente perfilavam-se circunspectas personagens, grande bigodaças ou saias compridas, farfalhosas. Apesar de tudo, esta rápida tecnologia em clara competição contra a demorada pintura dos retratos. As ruas das cidades, essas, deixavam-se menos fotografar, pois eram mais coisas do povo que da arte.

Contudo, a tecnologia lá foi digerindo séculos de rapidez e de custos, tornando-se cada vez mais popular. O nitrato de prata e as 36 fotografias dentro de um rolo deram lugar ao imediato e infinito mundo digital. O acesso livre à arte instantânea tornou-se democraticamente universal, armazenada em contentores colossais, guardada em satélites que, divinos, nos espreitam permanentemente a partir do grande espaço. Perdeu-se a conta às imagens repentinas de flores, gatinhos e pores-do-sol e a arte foi progressivamente abandonando a crítica, assumindo o falso compromisso estético de que o artista somos nós todos.

Porém, tal como os dois artistas o fizeram, também Lisboa, por ela própria, permaneceu a errar, sistematicamente, e a reconstruir as suas ruas sobre essa suposta falha contínua, sobre uma mole infinda de falsas belas fotografias partilhadas nas redes sociais onde, apesar de tudo, se esconde a centelha urbana de «a Utopia ou o Caos».

É nesse instante claro que as imagens de Bruno Pereira e Paulo Romão Brás vêm exigir ao espectador um tempo, solicitando a quem as olhe o modo necessário para deter, ou melhor dizendo, reter não a citada realidade mas a sua impressão, o seu código, a sua interpretação. Estas fotografias, nem landscape nem portrait, aproximam-se muito mais do velho ciclo das naturezas-mortas. Still Life. Se surgem transeuntes, aliás muito poucos, eles não são retratados, apenas conferem um elemento em ponto-morto para que o cenário, aos nossos olhos, se desloque ostensivamente do centro e nos mostre a periferia. Tal como a cidade que, dia a dia, é cada vez mais edificada a partir da periferia. Aí, no lado lateral, é que se encontra o respectivo cerne. “I Can´t Breathe” implora o unicórnio-balão esvaziado de hélio ou de atmosfera, esgaravata o cão no vidro que o impede de respirar. As montras grafitadas, os papéis rasgados, os cabeleireiros abandonados. O chão há muito repisado. Não estão devolutos, antes solicitam o exigível resgate. A sua figuração sugere uma espécie de fade out perante a realidade anterior que, afinal, já não representa; um facto tão parecido com os velhos daguerreótipos que, séculos depois, vão perdendo a luz que os impressionou, esquecidos de que as modernas fototecas já lhes interromperam o desvanecimento, restaurando-os, digitalizando-os, amputando-os do natural caminho para a total, final abstracção luminosa.

Mas os errantes Bruno Pereira e Paulo Romão Brás não se apresentam como taxidermistas das imagens. Eles apreciam, sobremaneira, a sua evolução, o seu princípio vital. A cidade de Lisboa que nos mostram talvez não tenha falhado assim tão redondamente. Talvez ela esteja simplesmente a emendar a mão e a seduzir-nos tentando contar a história da sua utopia ou do seu caos. Melhor, pelas fotografias de Paulo Romão Brás e Bruno Pereira, Lisboa tenta antes dissimular a encenação da sua utopia e a ética do seu caos.

João Eduardo Ferreira