Da boca para fora
e do coração para dentro
Escrever um texto a oito mãos seria tarefa fácil para um polvo, caso os polvos dominassem a arte da escrita. Tratando-se de bichos homens, em oito mãos contam-se 40 dedos, mais do que as letras do alfabeto, cada um deles com disponibilidade para pressionar o teclado (uns com mais destreza do que outros, pois está claro). Além disso, é preciso acrescentar um mínimo de quatro cérebros, cada um mais teimoso do que o outro, pois sabe-se que, sem estes, as mãos ficam penduradas, sem saber onde se meter.
De início metemos os pés pelas mãos (e diga-se que os dedos dos pés são extremamente incompetentes em matéria de escrita), mas depois lá encontrámos uma forma hábil de dividir tarefas: uma mão para pôr vírgulas, outra para carregar no caps-lock em caso de maiúscula; uma para as palavras difíceis, outra para as mais correntes; uma dada a metáforas, outra sempre pronta a apagar o que todas as outras escreveram; uma para dar um murro na mesa, outra para coçar a cabeça em busca de ideias… que isto de escrever, como se sabe, faz uma comichão dos diabos.
A Morte do Artista chega ao #8. Marca que os jornais diários alcançam à entrada da segunda semana de publicação. Mas como nós escrevemos a oito mãos, demorámos um bocadinho mais tempo. Oito anos irresponsavelmente dedicados ao trabalho de cuidar (ou descuidar) de algo tão sagrado como a literatura, arte sem a qual não saberíamos viver. Isto é um exagero, claro, coisas que se dizem da boca para fora… Se os livros fossem comestíveis há muito que os teríamos devorado. Quem resistiria a um bom Saramago com molho à chefe? Ou a um Camilo com ovo a cavalo? Razão tinha o Bolhão Pato, de quem não conhecemos os livros, mas veneramos as amêijoas (a sétima mão não concordou com o que a terceira escreveu, talvez por não gostar de amêijoas, mas a quarta, in extremis, impediu que a frase fosse apagada).
Da boca para fora, desafiámos a nossa querida Hélia Correia a escrever um texto para a revista. E do coração para dentro ela ofereceu-nos este “Estar a Mais”. Esfregámos as mãos de contentes. Às nossas mãos, que então já eram 12, juntámos outras 22. Feitas as contas, só não são 340 dedos porque vários autores juraram a pés juntos que jamais, em circunstância alguma, usaram os mindinhos, e há outros que abdicaram do polegar e do anelar. Obviamente, é algo que respeitamos: cada um coça a cabeça com os dedos que estiverem mais à mão.
E… mãos à obra. Ficámos feitos num oito, para criar este objeto tentacular, que vai dos fiordes da Noruega à praia da Adraga, num dedilhar de caminhos, entre prosa, poesia, ilustração. Como sempre, como dantes… Enfim, da boca para fora, haveria muito mais a dizer sobre a revista, mas a mão que põe os pontos finais acha que devemos ficar por aqui. E quem somos nós para a contrariar?
