Bem-vindos a nenhures!
A terra de ninguém merece ser cultivada mesmo que não se saiba a quem pertencem os frutos e os despojos. Em época de míngua não se desperdiçam terrenos férteis. E se não houver quem colha, salvar-se-á sempre a paisagem.
Vulgarmente, designa-se por terra de ninguém o espaço entre dois países vizinhos, uma margem de segurança que a História nos ensinou a preservar. Tanto serve para os unir como para os separar. Nós preferimos pensá-la como uma coisa e a outra, um espaço em que se soma e se vive sem regras nem preconceitos. Uma espécie de gravidade zero entre a ânsia e a tranquilidade onde sempre nos encontraremos. A terra de ninguém é um faroeste moral e criativo, onde tudo pode acontecer; a música torna-se literatura e vice-versa, enunciam-se poemas e encurtam-se oceanos, porque não se fixam preceitos nem conceitos.
A terra de ninguém entre Portugal e o Brasil alonga-se por 4000 milhas náuticas. São os países vizinhos mais distantes do mundo. Foi ali, nesse espaço sem fim, que encontrámos Adriana Calcanhotto que, no momento exato, pousou a guitarra e nos recitou um poema. Ficámos embeiçados. E vetámos à perplexidade os céticos que acreditam que por se ser uma coisa já não se pode ser outra.
Pelo caminho, sem usar astrolábio, nem sequer procurando o Cruzeiro do Sul, resgatámos navegantes de Cabo Verde, Moçambique e Itália, deslocámos outros tantos navegantes das suas calmas marés para o mar aberto, cheio de ondas contraditórias, em que barcos se afundam para melhor flutuar. E, pelo caminho, como é hábito, empoleirámo-nos a nós próprios, espantados espantalhos, que em vez de afugentar pássaros fazem por voar com eles.
É, assim, numa inusitada e independente insistência, num vazio legal, devaneio muralista, confluência de rios, espaço sem dono nem sono, surge o volume 4 de A Morte do Artista, pelo quarto ano não consecutivo, confirmando a auto-imposta (não) regra da periodicidade eventual. Insistimos na ausência de compromisso, pelo que não nos comprometemos a não existir. A terra de ninguém serve para isso mesmo. O futuro é uma terra de ninguém que cultivamos timidamente no intervalo entre a seca e as cheias. E, para já, o que de mais importante temos para dizer está escrito nas páginas que a seguir se lerão.
