Lançamento dia 23 de maio, às 16h, no Palácio Galveias, em Lisboa

Revira a volta
Estávamos muito bem a andar, sem particular direção, a caminho de sítio nenhum, que é como quem diz, a caminho de todos os lugares, quando, de repente, sem aviso prévio, um vendaval, um cataclismo, um tremor de dentes, uma minudência, uma vírgula fora do lugar, uma borboleta de asas assimétricas, um sorriso comprometedor, um raio de ar, uma orla marítima, uma curva acentuada para o céu, uma periclitância, uma tempestade com nome de homem, um anticiclone com nome de mulher nos fizeram perder o norte e, claro está, também o sul, o este e o oeste — já se sabe quando se perde um, perdem-se logo os outros todos. Houve então um que comentou: “E eu pensava que esta estrada era de sentido único”. E outro: “Mas não estávamos num beco sem saída?” O mais sábio respondeu: “Não há estradas de sentido único quando se anda a pé e todos os becos têm saída no mesmo sítio da entrada”.
Volta e revira a volta e continuamos todos a andar, sem particular direção, a caminho de sítio nenhum que é como quem diz, a caminho de todos os lugares, mas no sentido contrário. Porque quando não se tem direção todos os caminhos estão certos; ninguém se perde quando o objetivo é navegar à deriva. Mas nós somos mais como o Régio: “Não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí. E às vezes também somos como a Chula: “Para melhor está bem está bem, para pior já basta assim”.
Volta e revira a volta. À segunda inversão de marcha voltamos a caminhar para o mesmo lugar. Ou talvez não, porque os sítios não se repetem, muito menos os caminhos: são sempre diferentes, sobretudo quando são iguais. E, por isso, vamos. A seta que dizia todas as direções foi dar a um beco sem saída e agora temos de escavar a nossa estrada entre paredes de betão. O que importa é continuar a escavar, o que importa é continuar a caminhar em busca de um novo novo mundo. Como diz Saramago, “Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”. O lugar em que a Terra corrige as assimetrias dos seus movimentos de rotação e translação e torna-se subitamente um lar mais equilibrado, sem que uns rodem mais depressa do que outros. Sabemos que o mundo não está pelos ajustes, mas, volta e revira a volta, nós continuamos a tentar.
E assim, sem movimentos translúcidos, muitos menos lúcidos, mas com a inquietude de quem sabe ficar quieto, alcançámos, para já, o volume 9 d’A Morte do Artista. Uma revista já de muitas e muitos, para a qual estabelecemos uma periodicidade quinzenal, mas que tem saído do nosso beco à razão de uma vez por ano. Continua a ser feita com o mesmo grau de improbabilidade, em regime de aflição, o que lhe concede um estado de graça insano, sobretudo para quem vê de fora — os loucos são tão perigosos como fascinantes.
Podem muitos pensar que este é o último número antes do próximo — dizem que o 10 é mais redondo do que o 9 e, por isso, digno de especial festa e algazarra, nem que seja em jeito de auto-homenagem. Contudo, não poupámos cartuxos nesta edição até porque, cá para nós, o 9 é um número bem redondinho e sujeito a inversões sugestivas. Talvez seja por isso que, no mesmo volume em que fazemos uma querida homenagem a Afonso Cruz, o mais notável enciclopedista de estórias da literatura portuguesa, que nos ofereceu um texto cheio, com autorretrato e tudo, publicamos, com a devida vénia, um conto de João Melo, um anticiclone que os Açores ofereceram à lusofonia. Pelo caminho, a diversidade que sempre procuramos. Poesia de Pedro Eiras, Joana Kehler e Tiago Gomes, Ana Costa Franco, Nilson Dourado ou Niko Mukuruzza. A prosa de Luís Natal Marques, Pedro Castro Henriques ou Henrique Teixeira. E, claro, também nós nos metemos ao barulho, não fosse isto A Morte do Artista: como de habitual, textos de Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira e Manuel Halpern; e arte de Paulo Romão Brás.
Chegando a mais esta encruzilhada, podemos desde já afirmar: para o ano é que vai ser! Ainda não sabemos o quê, mas alguma coisa será. Porque, enquanto houver artistas, ainda que moribundos, há caminhos para tropeçar. Ou, como dizia o poeta António Machado Ruiz (perdoem-me o castelhano): “Golpe a golpe, verso a verso/ Cuando el jilguero no puede cantar/ Cuando el poeta es un peregrino/ Cuando de nada nos sirve rezar/ Caminante no hay camino, se hace camino al andar”