Há cafés sem princípio e princípios sem fim. Para complicar ainda o léxico quotidiano do empregado de balcão, passámos a pedir um café com o fim da bica anterior. Com ar de quem diz “inventam-cada-coisa”, “só-me-faltava-mais-esta”, o homem, com uma rudeza que não lhe é típica, respondeu: “Mas isso é fácil, basta usar uma chávena por lavar”.
Para nascer de novo – dizem os antigos e Salmon Rushdie que é dos homens que mais vezes renasceu – é preciso morrer primeiro. Todos somos um pouco gatos de sete vidas mal contadas. Ver nos finais novos princípios é o mais básico instinto de sobrevivência, basta olhar para as camadas do subsolo das escavações arqueológicas.
O fim é um princípio que muitas vezes ignoramos, mas sem o qual não conseguimos viver. Claro que há outros princípios: a Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação. Nesta revista a morte é o nosso princípio, acabamos cada número sem a certeza de que vamos fazer o seguinte. Mas é através dos restos, da comida que sobra no tacho, dos pedaços de fim, que criamos a base para o novo refogado. Como nascemos, enquanto revista, a um 13 de maio (valha-nos nossa senhora), até lhe chamámos um milagre, apesar dos milagres não fazerem parte dos nossos princípios.
E, em principio, não será ainda o fim. Ou, como diz Manuel António Pina, “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma é apenas um pouco tarde”. Parece ser sempre tarde para tudo o que queremos fazer.
Para já celebramos. Temos uma revista nova cheia de poemas e prosas inéditos, de autores de que muito gostamos. E, à sexta reencarnação, homenageamos Regina Guimarães, uma poetiza que nos habituámos a cantar e que adoramos ler em voz alta. É Regina Guimarães que pergunta no poema que nos oferece: “Como tens passado? Como tens futuro?” Temos passado bem obrigado. Quanto ao futuro… está mesmo aí ao virar da página.
Avancemos, pois. Para o início.
